17 de Abril de 2009 - 07h57 - Última modificação em 17 de Abril de 2009 - 09h04
Declaração da Cúpula das Américas engloba experiências brasileiras de inclusão social
Roberto Maltchik
Enviado Especial da EBC
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Port of Spain (Trinidad e Tobago) - O Brasil participou, por oito meses, da negociação que resultou na declaração final da 5ª Cúpula das Américas. O embaixador Osmar Chohfi, representante do país na Organização dos Estados Americanos (OEA), foi o interlocutor e responsável pela inclusão de temas importantes ao Brasil no encontro, como os programas de geração de renda e combate a pobreza, além das metas de defesa da biodiversidade.
Antes de integrar-se à comitiva oficial do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Chohfi conversou com a Agência Brasil sobre o embargo econômico a Cuba, a crise financeira internacional e sobre como os países do continente adotam políticas para atender aos compromissos da cúpula. A seguir, os principais trechos da entrevista.
Agência Brasil - Como o senhor interpreta o pedido de encontro do presidente Barak Obama com os presidentes da América do Sul, integrantes da União das Nações Sul-Americanas?
Osmar Chohfi - Eu acho que é importante esse encontro na medida em que há um reconhecimento da vigência e da consolidação da Unasul [União das Nações Sul-Americanas] como mecanismo de concertação dos países sul-americanos. Dá a oportunidade de tratar dos três eixos temáticos da cúpula, que são prosperidade humana, segurança energética e sustentabilidade ambiental. Eu te diria que, tendo participado de várias etapas do processo de negociação, acho que essa declaração trata de temas e avanços importantes. Um deles, por exemplo, em que houve avanço importante, é na questão das mudanças climáticas.
ABr - Como, mesmo fora dos temas centrais da cúpula, medidas contra a crise podem ser tratadas no encontro?
Chohfi - O que é importante reconhecer é que essas declarações são compromissos políticos assumidos no alto nível. O projeto de declaração é anterior à crise, portanto antes que eclodisse a crise entre setembro e outubro do ano passado. Mas, o parágrafo sétimo [do projeto de declaração final] menciona a importância da cooperação internacional para enfrentar as conseqüências dessa crise, em manter o crescimento, assegurando empregos, e sobretudo uma nova regulamentação dos sistemas financeiros internacionais.
ABr - Quais ações podem ser adotadas quanto à crise?
Chohfi - Há o mandato político assumido no mais alto nível dos chefes de estados e de governo, mas cabe também a outras instâncias, a outros organismos financeiros internacionais e a outros fóruns também onde podem ser tomar decisões mais concretas a respeito disso.
ABr - Até que o ponto os países que assinam o documento final adotam de fato ações para cumprir o que está escrito na declaração?
Chohfi - Evidentemente, como documento político, ele é objeto de negociação e de busca de convergências dos temas. Eu acho que há uma temática comum, reconhecida por todos os países membros, que está dada pelos três eixos, e com relação a cada um dos eixos, alguns com metas estabelecidas para 2012 ou para 2015, no estilo do que se fez para a declaração do milênio das Nações Unidas. O que nós temos que assegurar é que esses compromissos assumidos nos mais altos níveis políticos sejam traduzidos em ações concretas nos níveis nacional e internacional.
ABr - Mas as políticas dos países estão alinhadas aos compromissos?
Chohfi - Por exemplo, no capítulo sobre prosperidade humana, há uma grande ênfase nos temas de inclusão social, de saúde e nutrição. Portanto, são assuntos que recolhem o consenso de todos os países que vão assinar essa declaração, e eles certamente vão se traduzir em compromissos de cooperação internacional e vão se traduzir também em ações políticas internas.
ABr - Até que ponto as pressões sobre a crise e sobre o bloqueio a Cuba podem acirrar ainda mais o debate e frustrar a expectativa de evolução nas relações América Latina-Estados Unidos?
Chohfi - Acho que essa é uma oportunidade excelente para a nova administração americana estabelecer um novo tipo de relação com a América Latina e o Caribe. Todos os países tem relações bilaterias importantes com os EUA. O presidente Lula esteve recentemente em Washington. Mas, é óbvio que essa cúpula proporciona uma nova oportunidade de diálogo e eu acho que o presidente Obama não vai se constranger, porque vai ser um diálogo respeitoso. Há pré-disposição dos Estados Unidos de escutar a região, e isso foi dito pelo embaixador dos EUA na cúpula. Certamente, haverá um reconhecimento por parte dos Estados Unidos de que hoje nós temos uma região muito diversa, que busca a consolidação da sua democracia com caminhos decididos nacionalmente. Então, o reconhecimento dessa diversidade é uma demonstração creio que da riqueza das instituições. Não creio que haja qualquer dialogo que possa constranger os chefes de estado presentes. Vai ser um diálogo rico.
ABr - E o caso de Cuba?
Chohfi - É realmente uma anomalia que Cuba esteja excluída desses fóruns americanos e essa é uma situação que deve ser corrigida. E eu acho que ela vai ser corrigida brevemente. No contexto do sistema interamericano, há iniciativas que podem ser tomadas. Há também os aspectos da relações entre Cuba e Estados Unidos, que é um tema que os dois países vão tratar e espero que tratem sobretudo com abertura para que sejam atendidas às aspirações de toda a nossa região, de que Cuba seja reintegrada plenamente aos nossos fóruns e a nossas discussões.
ABr - Como os interesses do Brasil estão contemplados pela declaração da cúpula?
Chohfi - Eu acho que o Brasil tem interesses importantes que foram recolhidos. Nós temos aqui no capítulo de prosperidade humana a inclusão dos temas sociais, a inclusão do combate à pobreza. Na questão de educação e saúde, o reconhecimento de que devemos enriquecer a matriz energética. E há um parágrafo específico, o 33, sobre biocombustíveis. Na área de sustentabilidade ambiental está o tema da defesa da biodivesidade. Em suma, eu acho que os interesses do Brasil foram atendidos nesse projeto de declaração. Eu creio que vai trazer boas conseqüências para região.
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