12 de Junho de 2009 - 09h12 - Última modificação em 12 de Junho de 2009 - 09h39![]()
Semelhanças e diferenças no jornalismo da agência pública
Paulo Machado
Ouvidor Adjunto da EBC
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Brasília - O leitor Edson Goncalves de Almeida perguntou: “Por que os jornalistas da Agência Brasil estão sempre a reboque da UOL e da FOLHA?” Referindo-se às semelhanças entre os assuntos tratados e aos conteúdos publicados pelo portal de notícias da Folha de São Paulo e a Agência Brasil ele afirmou que: “às vezes até copiam totalmente a reportagem... O interessante é que quem dá a PAUTA é sempre a UOL e a FOLHA e nunca vejo independência nos jornalistas da AGÊNCIA BRASIL.” A título de exemplo, o leitor copiou em sua mensagem quatro casos recentes nos quais ocorrem as semelhanças citadas entre as matérias do portal e da ABr.
A Agência Brasil respondeu ao leitor que: “1) Não é verdade que a Agência Brasil está sempre a reboque do UOL e da Folha, ao contrário, como fica claro no exemplo dado pelo leitor: ' Creche é fechada em SC após confirmação de caso de gripe suína' , a Agência Brasil publicou a matéria às 17:22h. A Folha Online publicou, com crédito, a matéria da Agência Brasil às 21:08 h. 2) A Agência Brasil não copia matérias do UOL e da Folha por suas normas editoriais. O exemplo dado pelo leitor de resgate de 17 corpos é resultado de uma entrevista concedida a todos os veículos de comunicação, onde a Agência Brasil estava presente. 3) A Agência Brasil sempre se pauta por assuntos de interesse do cidadão, como em todos os casos apontados pelo leitor.”
Em virtude das colocações do leitor e da resposta da ABr, os demais leitores poderiam perguntar: mas afinal, quem está pautando quem? Isso é o que menos importa. Se há semelhanças entre os assuntos pautados por um e outro veículo inclusive com semelhanças entre os respectivos conteúdos publicados, isso pode indicar que todos bebem da mesma água, se abastecem dos mesmos releases, ouvem as mesmas fontes, pelo menos no que se refere ao chamado “hardnews” - as “notícias do momento”.
Pode significar que usam os mesmos critérios editoriais para estabelecer suas pautas e daí decorre uma outra pergunta que está implícita na mensagem do leitor: “o que diferencia uma agência pública de notícias de uma agência privada se ambas tratam dos mesmos assuntos e da mesma forma? Ela não foi textualmente respondida mas, pode-se extrair da resposta da ABr que ambos os veículos se pautam por aquilo que julgam ser “assuntos de interesse do cidadão” . Porem há que se salientar ser essa apenas uma suposição uma vez que nem o portal UOL nem a Agência Folha foram ouvidos.
Independentemente das opiniões de um ou outro veículo sobre o que julgam ser assuntos de interesse do cidadão, essa é uma velha polêmica, tão velha e ao mesmo tempo tão nova quanto o próprio jornalismo. Velha porque desde os seus primórdios o jornalismo se debate para saber onde está focalizado o interesse do público a cada momento, tentando adivinhar as vontades e satisfazer as necessidades em termos de informação – é o que podemos chamar de jornalismo reativo. Como os veículos de informação não dispõem ainda de bolas de cristal e sequer de pesquisas sérias para identificar a cada momento, a cada novo fato, a vontade do cidadão, muitos se arvoram no direito de dizer a ele, cidadão, o que deve ser de seu interesse e em seu nome decidem o que ele deve saber.
A polêmica é nova também porque até hoje o jornalismo ainda engatinha em matéria de uma metodologia que permita avaliar corretamente quais são as necessidades do cidadão em termos de informação. A solução para tal polêmica talvez transcenda ao jornalismo em si e esteja um pouco mais além das técnicas que os jornalistas aprendem ou apreendem nas escolas. Ela pode estar no acompanhamento dos processos históricos, em todos os níveis de organização da sociedade e da atividade humana. Assim, a Agência Brasil, por não precisar vender seu conteúdo para os anunciantes, pode se pautar pelo interesse público e não do público, e informar o cidadão sobre os fatos a partir desses processos históricos e não do sensacionalismo dos fatos pelo seu impacto espetacular no cotidiano da sociedade.
Para exemplificar o que estamos dizendo, vamos analisar dois casos de coberturas recentes da Agência Brasil.
Gripe Suína
Na tarde de quinta-feira, 30 de abril, véspera do feriado do Dia dos Trabalhadores, me deparo com uma senhora em um supermercado de Brasília: estatura mediana, calça preta justa, blusa amarela, cabelos castanhos compridos, aparentando uns cinqüenta anos. A figura não me chamaria a atenção a não ser por um detalhe: ela usava uma máscara cirúrgica azul. Confesso que preconceituosamente, associei o fato ao estardalhaço que a mídia fazia sobre a possível pandemia da chamada, até então, Gripe Suína. As imagens de pessoas usando máscaras em outros países estavam em todos os telejornais, várias vezes ao dia. Pareceu-me que aquela personagem havia acabado de sair de um deles.
Dias mais tarde, dei-me conta de que aquela senhora poderia estar usando máscara, por exemplo, para se precaver da epidemia de Tuberculose que infecta cerca de 65 mil brasileiros por ano, 80 mil adoecem e cinco mil acabam morrendo, segundo informa uma das 12 matérias publicadas este ano sobre o assunto na Agência Brasil.
Na ABr, contrastando com a quantidade de notícias sobre outras doenças infecto-contagiosas e/ou epidemias, a gripe suína foi objeto de 214 matérias entre 23 de abril e 19 de maio, menos de um mês. Enquanto isso, no mesmo período, a epidemia de dengue, por exemplo, que fez, só em 2009, 226 mil vítimas das quais 51 fatais, foi assunto de 14 matérias.
Já a Meningite, que contaminou 309 pessoas com 41 mortes na Bahia, foi assunto de apenas uma matéria e o surto de Conjuntivite em Pernambuco, que atingia, até aquela data, mais de 700 pessoas ao dia, não foi tratado em nenhuma matéria. A Malária, que contabilizou em 2008, 306.347 casos, foi objeto de três matérias em 2009.
Fazendo as contas, até 19 de maio, tínhamos:
Doença
Casos Suspeitos
Casos
Confirmados
Mortes
N. de matérias
Dengue (2009)
-
226.000
51
14
Tuberculose (ano)
-
80.000
5000
12
Malária (2008)
-
306.347
-
3
Hanseníase (ano)
-
40.000
-
2
Meningite(BA-2009)
-
309
41
1
Conjuntivite (PE/dia)
-
700
-
0
Gripe Suína
38
8
0
214
(-) informação não encontrada nas matérias da ABr.
Portanto precisamos perguntar como o interesse público influenciou a decisão editorial da cobertura da Gripe Suína, na intensidade em que foi feita, e não influenciou a cobertura das demais doenças?
Uma das possíveis respostas encontra-se em uma dentre as 214 matérias. Na notícia Destaque dado à gripe suína na mídia abafa importância de outras doenças, diz pesquisador , publicada dia 7 de maio, o antropólogo entrevistado pela reportagem da ABr explicou que o destaque dado ao assunto se motiva principalmente pelo fato de “o discurso midiático ser um discurso espetacular”.
A propósito, o próprio leitor Edson Goncalves contestou a resposta da Agência Brasil:”Neste caso, tentei mostrar que a Agência Brasil vem trabalhando para disseminar o MEDO/TERROR [grifo do leitor] à população sobre a gripe suína, assim como fazem o UOL e FOLHA. Algo muito parecido com a febre amarela em tempos idos... é bom lembrar que a gripe suína não representa este mal que tanto falam... há doenças piores no nosso meio e que infectam em proporções bem maiores... A Agência Brasil deveria destacar que apesar de mais um número no caso da gripe suína, o país têm mantido o controle da doença melhor que em muitos países ditos primeiro mundo... faltou estas 'aspas' e assim, a Agencia Brasil ficou muito próximo do alarmismo inconsequente da grande mídia.”
Em sua réplica a ABr contestou:”Não consideramos adequada, e crivel, a opinião do leitor de que a Agência Brasil 'vem trabalhando para dissiminar o medo/terror à população sobre a gripe suína'. Temos feito uma cobertura informativa sobre a doença com avaliações de profissionais credenciados, de autoridades da área da saúde do governo brasileiro e da organização mundial da saúde.”
Uma semana antes de eclodir na mídia a Gripe Suína, a questão da cobertura do assunto saúde pública foi objeto de uma correspondência entre esta Ouvidoria e a ABr. Nela elogiamos o fato de ter noticiado a partir de um release do Ministério Público Federal do Rio de Janeiro (MPF-RJ) a sentença proferida pela Justiça Federal condenando a União e a prefeitura da cidade do Rio de Janeiro pelo não cumprimento das metas de implantação do Programa de Saúde da Família (PSF).
Naquela oportunidade sugerimos à ABr aprofundar o debate sobre as ações preventivas e curativas em saúde apurando quanto e como o Estado gasta nas respectivas políticas públicas, qual a sua eficiência e sua eficácia. Para isso, lembramos que seria necessário recuperar o processo histórico de criação do Sistema Único de Saúde (SUS) e os debates que se seguiram nas Conferências Nacionais de Saúde nas quais surgiu a idéia do PSF. Sugerimos também que fosse feito um balanço sobre a implantação e manutenção do Programa e de suas metas em todo o Brasil a partir de certos indicadores contidos na sentença proferida pelo juiz: “ver os índices de morbidade e de mortalidade principalmente no Rio de Janeiro e a situação de calamidade em que se encontra a saúde pública”. A Agência Brasil respondeu que aceitava a sugestão e que iria pautar o assunto.
Dignidade violada
Nas 61 matérias que integram a cobertura da ABr sobre a questão dos presídios intitulada Dignidade Violada, publicadas entre os dias 15 de maio e 4 de junho, encontramos o escândalo do sistema prisional brasileiro comentado por especialistas, políticos, presidiários, organizações da sociedade civil e autoridades dos três poderes. No total foram ouvidas 94 fontes sendo: Poder Executivo Federal: 18 (19%); Executivo Estadual: 28 (30%); Legislativo Federal: 6 (6%); Legislativo Estadual: 1 (1%); Judiciário Federal: 12 (13%);Judiciário Estadual: 5 (5%); Ministério Público Federal: 3 (3%); especialistas: 3 (3%); sociedade civil organizada: 13 (14%) e populares, todos de Espírito Santo: 5 (5%).
Nos primeiros seis dias a cobertura esteve focada exclusivamente na situação dos presídios do estado do Espirito Santo e no pedido de intervenção federal feito pelo Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária (CNPCP), órgão ligado ao Ministério da Justiça, em função de denúncias de tortura e esquartejamento de presos. Em uma das penitenciárias, o Conselho identificou pessoas presas em conteiners, cercados de lixo, esgoto a céu aberto e grande quantidade de insetos e ratos.
Sobre essa Cobertura Temática, em 20 de maio, o leitor Joaquim José Aires escreveu: “O que a Agência Brasil está fazendo com o Espírito Santo vai contra qualquer princípio do bom jornalismo. Ignorando o outro lado e se posicionando claramente a favor de um conselho político inoperante [Conselho Nacional de Justiça], a Agência mostra que está a serviço da política rasteira que predomina nos corredores do Congresso.” Até aquela data a ABr havia publicado19 matérias, nas quais foram ouvidas um total de 29 fontes. Destas, 18 (62%) criticavam a omissão do governo do estado em relação às condições no sistema prisional e 4 (14%) das fontes o defendiam falando de medidas previstas para amenizar a situação.
A Agência Brasil respondeu: “Discordamos da opinião do leitor. Não temos nenhum reparo a fazer sobre a cobertura. Todas as partes estão sendo ouvidas. Ainda hoje [20] publicamos uma longa matéria com secretário da Justiça do Espírito Santo, Ângelo Roncalli.”
Para saber o que “a Agência Brasil está fazendo com o Espirito Santo” fizemos uma leitura crítica da cobertura. Ela é um retrato que tem em primeiro plano a situação prisional, em segundo plano as responsabilidades do Estado brasileiro e por ultimo, como pano de fundo, de maneira pouco delineada, uma sociedade que não tem mais onde “guardar” seus excluídos. Tudo isso encadeado em um processo cujas origens não foram identificadas nas matérias mas que nem por isso torna o retrato menos real.
Talvez seja essa realidade que o leitor não queria ver transformada em debate público, pelo menos não da maneira como estava sendo feito na primeira semana da cobertura. O enfoque sobre o pedido de intervenção federal no estado, lembrava a intervenção ocorrida em 2000 devido à ação do crime organizado infiltrado nas instituições. As matérias da ABr não recuperam essa informação.
A partir da segunda semana da cobertura (21 de maio) o espectro começou a ser ampliado sendo ouvidas autoridades do Poder Executivo Federal (sobretudo o ministro Tarso Genro, e o diretor do Departamento Penitenciário Nacional – Depen – do Ministério da Justiça) que amenizaram a situação, admitindo que existem falhas no sistema prisional em escala nacional.
Foram entrevistadas apenas duas autoridades prisionais do Espírito Santo: o diretor de uma prisão que forneceu dados sobre o número de presos e o superintendente de Policia Prisional do Estado, que jogou nos presos a culpa pela sujeira nos presídios. A partir do dia 26 de maio a situação em outros estados – Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Paraíba, Pará e Santa Catarina, alguns dos quais também usam conteiners para abrigar presos – começou a aparecer nas matérias tirando o foco exclusivo sobre os capixabas.
A proposta de reforma do Judiciário não foi discutida nas matérias. A adoção de penas alternativas foi citada duas vezes, mas só para registrar o fato de que a legislação ainda não se adequou a essa possível solução para amenizar a superlotação carcerária. O debate sobre essas questões poderia contextualizar o problema de forma mais ampla dando outra dimensão à cobertura. Os leitores poderiam ser informados por exemplo, por que em vez da reforma do Judiciário, o Conselho Nacional de Justiça articulou apenas uma solução pontual com um “mutirão” no Espírito Santo?
Na foto de chamada para a cobertura temática explodem mãos clamando por justiça através das grades. Aliás, a mesma justiça que as colocou atrás das grades e que agora não sabe o que fazer quando as grades não comportam mais mãos, quando o Estado não tem mais aonde “depositar” essas testemunhas que teimam em sobreviver à ineficácia e à ineficiência de políticas públicas, tanto fora quanto dentro das cadeias. A cobertura permite ao cidadão saber tudo isso, mas falha ao não explicar por que isso ocorre.
Esse debate está pautado por um jornalismo que cumpre sua função social ao denunciar, fiscalizar e registrar nas páginas da história as masmorras que o processo civilizatório não conseguiu eliminar, alem de apontar as contradições de autoridades que tentam esquivar-se de suas responsabilidades pela situação.
São dois tipos de jornalismo. Na cobertura da Gripe Suína a Agência se assemelha aos demais veículos de comunicação se submetendo ao que a mídia em geral supõe ser de interesse dos cidadãos. Na cobertura da violação da dignidade humana nos presídios brasileiros a Agência se aproxima de seus próprios princípios públicos e, portanto, consegue se diferenciar. Quais os critérios editoriais utilizados para se decidir por um ou outro tipo de cobertura? Esse debate poderia contribuir para a construção de critérios e paradigmas da comunicação pública conforme consta das atribuições da EBC: colaborar para formar cidadãos críticos e conscientes.
Até a próxima semana.
Agência Brasil - Semelhanças e diferenças no jornalismo da agência pública - Direito Público
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