(21.08.09)
| Charge de Gerson Kauer |
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Por Rafael Berthold, advogado (OAB-RS nº 62.120)
Dois grandes terapeutas que litigam sobre a autoria de determinada tese científica se encontram no saguão do foro, minutos antes da audiência. O aperto de mãos hipócrita de forma alguma oculta o sentimento hostil que nutrem um pelo outro.
A erudição de ambos é, agora, a única fronteira a impedir que a contenda ingressasse o plano da agressão física. Por essa mesma razão o litígio veio a instaurar-se no plano puramente psíquico. Trava-se, então, um irônico diálogo:
– Contratei um advogado imbatível. Seria melhor você desistir da ação agora mesmo e evitar o constrangimento da derrota - diz o psicólogo que havia chegado antes ao local da audiência.
– Duvido que o seu advogado seja melhor que o meu. Ele é portador de transtorno obsessivo compulsivo e de uma série de outras enfermidades que o tornam uma máquina de Advocacia. Nunca imprime uma petição que não esteja realmente perfeita. Conta até o número de linhas de cada página para alcançar a simetria ideal do texto.
– Pois o meu advogado é psicótico-narcisista. Não aceitará outro resultado que não a vitória. Levará esta ação para o lado pessoal e, certamente, não vai se contentar em vencê-la. Vai tentar destruir a sua carreira e a de seu advogado.
– O meu advogado possui Q.I. 187 e um quadro avançado de esquizofrenia paranóide e mania de perseguição. Não vai dormir até rebater com a mais absoluta veemência todos os pontos da tese defensiva do seu advogado!
– Já o meu advogado teve uma infância infeliz e encontrou nos livros o substituto ideal para os amiguinhos que não tinha. Isso o tornou incrivelmente erudito!
– Ah, mas o meu advogado era ignorado pelo pai e pela mãe o que tornou carente de atenção e de afeto. Por esta razão ele se esforça muito mais no trabalho afim de obter o reconhecimento que não obteve quando criança!
– Mandei meu advogado parar de tomar lítio há três semanas para que ele viesse a essa audiência absolutamente furioso!
– E eu disse que para o meu que se ele perdesse essa causa, eu não seria mais seu amigo!
– E eu...
Nesse momento, os dois homens percebem que uma multidão acompanha a discussão, inclusive seus respectivos advogados.
Diante do entrevero que se forma a audiência é cancelada. A próxima ocasião em que ambos os psicólogos se encontram também é uma audiência: a da ação de danos morais que os causídicos movem contra eles por revelarem suas intimidades que deveriam estar sob sigilo profissional. Então, o terapeuta que outrora movera a ação contra o colega aproxima-se do mesmo e indaga:
– E agora? O que faremos?
– Ora, não se preocupe. Os juízes nunca fixam indenizações em mais do que alguns salários mínimos e honorários são sempre arbitrados em valores irrisórios.
E o outro, perplexo, respondeu:
– Mas que loucura!
(*) E.mail: rafael@seb.adv.br
Fonte: www.espacovital.com.br

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