21 de Fevereiro de 2009 - 11h09 - Última modificação em 21 de Fevereiro de 2009 - 14h48
Folia em Ouro Preto divide-se entre a tradição e os hits do momento
Marco Antônio Soalheiro
Enviado Especial
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Ouro Preto (MG) - "Mamãe eu quero”, “Créu”, “Sou praieiro”. Num raio de no máximo 1 quilômetro, marchinhas, axé, funk e hip hop ocupam diferentes palcos em espaços para eventos, praças, ruas e ladeiras da antiga capital de Minas Gerais e patrimônio cultural da humanidade, que tem o carnaval mais badalado do estado.
As canções tradicionais associadas, de forma geral, às cidades históricas, são hoje apenas uma faceta da festa que reflete a força de marketing das músicas que invadem as rádios do país. Uma diversidade que é celebrada por muitos, mas criticada pelos que acham a cidade perde suas raízes.
“O folião que vier aqui hoje vai encontrar 'uma salada de frutas' muito grande. Se o poder público quisesse, poderia investir mais nos blocos tradicionais, que estão morrendo”, afirmou o comerciante José Moreira, de 53 anos, dono de um misto de bar e mercearia, perto da Praça Tiradentes. Ele é organizador de um bloco que cobra preços populares e se dedica às marchinhas.
“O público jovem que vem para Ouro Preto não quer ficar escutando marchinha de carnaval. Isso é fato. E o axé e o funk são tradições no Brasil”, rebateu o estudante Leandro Felipe, de 24 anos.
Durante o carnaval, cerca de 50 mil pessoas devem visitar diariamente a cidade, cuja população fixa é de pouco mais de 70 mil habitantes. A programação oficial foi montada de forma a prestigiar artistas locais de todos os ritmos.
Para o patrimônio histórico, a prefeitura investiu aproximadamente R$ 1 milhão em apoios culturais, infra-estrutura, medidas de segurança e estudos de impacto. Com impostos que serão arrecadados de blocos e organizadores de eventos, espera-se arrecadar R$ 300 mil. Segundo o secretário municipal de Cultura e Turismo, Gleiser Boroni, a opção pela diversidade é a mais coerente para potencializar a festa.
“A cidade de Ouro Preto tem um formato em que cada folião busca aquele ritmo que mais o satisfaz. Temos que lembrar que nosso carnaval é um dos mais famosos do Brasil e de Minas Gerais. E Ouro Preto é uma cidade estudantil. Temos que respeitar isso. O poder público não pode arbitrariamente baixar um decreto para proibir o axé e o funk”, argumentou Boroni.
Além dos cinco palcos onde ocorrem os shows noturnos, diversos blocos irão se apresentar nas ruas durante todas as tardes no carnaval. O mais antigo é o Zé Pereira dos Lacaios, fundado em 1867 por empregados do palácio do governador e mantido com uma filiação praticamente hereditária. O grupo desfila com bonecos conhecidos como catitões. Outros blocos, como o Bandalheira Folclórica Ouro-Pretana e o Balanço da Cobra, se destacam pela sátira política e social.
Outra peculiaridade ouro-pretana é o carnaval promovido pelas repúblicas de estudantes da Universidade Federal de Ouro Preto. Os casarões formam um mundo particular, com festas temáticas e bebidas alcoólicas servidas à vontade aos hóspedes e visitantes durante 24 horas por dia.
Os mesmos estudantes organizam blocos com grande estrutura que se concentram durante o dia no Espaço Folia, uma área explorada por uma empresa privada no estacionamento do Centro de Artes e Convenções da cidade. Os abadás são vendidos em média a R$ 100. O preço inclui a bebida.
À noite, no mesmo espaço, uma grande produtora leva à cidade shows com estrelas da axé music e do funk. Até a Quarta-Feira de Cinzas, passarão por Ouro Preto os cantores baianos Alexandre Peixe, Tomate e integrantes do grupo Vixi Mainha, além dos funkeiros cariocas MC Bolinho e MC Colibri.
“Você pode contar nos dedos as cidades que oferecem ao visitante a oportunidade de assistir a axé, ouvir marchinhas e conhecer o hip hop. A cultura é feita de diversos matizes, e isso dá mais propriedade à cidade de Ouro Preto”, opinou o diretor artístico Flaviano Souza, morador da cidade.
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